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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Minha mãe é uma peça 2

Paulo Gustavo é, realmente, talentoso. De todos os personagens que interpreta, o melhor é a hilária Dona Hermínia, figura inspirada na própria mãe e que é a 'alma do negócio' na sequência do sucesso "Minha mãe é uma peça". Aqui, o ator atende o chamado do público fã do original: entretenimento mais do mesmo.
 
Esta continuação tem mais tagarelice da protagonista, diversos momentos cômicos, mais dramaticidade e tecnicamente é melhor que o antecessor. O  roteiro acerta na comédia (o humor parece esquetes sequenciadas) e na premissa que coloca Hermínia diante da síndrome do ninho vazio, mas escorrega no desenvolvimento de algumas situações.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mais forte que o mundo - A história de José Aldo

Bom filme esse "Mais forte que o mundo", a cinebiografia do lutador de MMA José Aldo, o primeiro brasileiro a conquistar o cinturão no UFC. O elenco está ótimo, com destaque para José Loreto, e há um apuro técnico interessante, principalmente ao montar as sequencias de lutas - o que indica que a recente estadia do diretor Afonso Poyart em Hollywood foi bem aproveitada.

O longa só não é excelente porque o roteiro 'não deixa'. Por mais que a obra possa ter retratada de maneira fiel as duras situações vividas por Aldo, faltou criatividade para fugir do lugar comum. Até há um certo lirismo na narrativa quando o protagonista tem que vencer a si próprio e superar seu passado, mas não é o suficiente para a premissa ser, digamos, diferente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Que horas ela volta?

Qualquer empregado, seja de uma empresa ou do lar, tem sua vida ligada ao trabalho, de onde tira o sustento. Pessoas passam um terço do dia (no mínimo) em algum lugar para que os chefes ganhem dinheiro ou gastem com algum tipo de manutenção. Muitas vezes esse ganho é mal repassado para aqueles que não deixam a engrenagem parar. Geralmente, quanto mais baixo for o cargo do funcionário, menos valorizado é. O empregado doméstico talvez seja o retrato mais claro, não só da diferença entre a relação funcionário-patrão (ou rico-pobre), mas do comportamento humano numa sociedade desequilibrada que 'preza', subliminarmente, pelo escravismo, pela hierarquia (neoliberal), pelo preconceito e pelas imposições e pela hipocrisia.
 
O parágrafo acima é a principal mensagem do filme "Que horas ela volta?", dirigido por Anna Muylaert, que aborda a realidade no relacionamento de quem manda e de quem obedece. O filme tem um realismo incrível, seja pelas atuações convincentes (destaque para a excelente atuação de Regina Casé), pelos bons diálogos ou pela câmera estática que observa os movimentos rotineiros de uma casa de classe alta.
 
O dia-a-dia da empregada doméstica Val (Casé), uma pernambucana que veio para São Paulo em busca de trabalho, é tranquilo. Ela mora no próprio serviço, tem muitos afazeres, cumpre exatamente o que os patrões exigem e é, aparentemente, respeitada (como se fosse da família). Val, inclusive, tem um relacionamento quase materno com Fabinho (Michel Joelsas), o filho do casal para quem trabalha, que já foi babá e o viu crescer. A rotina e os comportamentos dos personagens começam a mudar quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), que não vê a 10 anos, vem para a capital para ficar com a mãe e prestar vestibular.
 
A garota, de forte personalidade, desestrutura o 'sistema' da família e, também, de sua mãe, que tem métodos de trabalho que respeitam a hierarquia do lugar. A partir daí, tudo começa a mudar e a 'ordem estabelecida' pelos patrões de Val se desestabiliza ocasionando situações ricas em discussões antropológicas, inversões de valores e, principalmente, no retrato de conceitos citados no fim do primeiro parágrafo deste texto.
 
Tudo no filme acontece de forma sutil e com humor rasteiro situacional pontual, inclusive na reviravolta final, que mostra a completa transformação e liberdade da protagonista. "Que horas ela volta?" é um belo estudo do comportamento humano que, apesar de mostrar que certos conceitos não mudam, apenas trocam de nome, nos alerta para valorizar o que temos de mais importante: a vida e a família.
 
Que horas ela volta?
2015, BRA - 114 minutos
Drama/Comédia
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé, Ana Paula Csernik, Bete Dorgam, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas, Camila Márdila
Cotação: * * * *
 
Termômetro:
- Humor: * * *
- Drama: * * * *
- Romance: *
- Fantasia: *
- Ação / Aventura: *
- Policial: *
- Suspense: *  
- Sexualidade: *
- Escatologia: *   
- Violência: *

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Entre Abelhas

"Entre Abelhas" é um drama existencial, longe de ser uma comédia. No entanto, há (poucas) pitadas de humor que vêm de forma rasteira, como as consequências do fator inusitado que aflinge o protagonista. A trama lembra um "Ensaio sobre a cegueira" de maneira, digamos, invertida e menos apocalíptica. O protagonista não fica cego, mas deixa de enxergar as pessoas. A causa? Uma forte depressão após se separar da esposa. E é aí que começam os problemas, alías, as soluções! E isso é trabalhada de forma eficiente até um clímax muito bem escrito e altamente reflexivo. A direção de Ian SBF é sensível. Fábio Porchat está bem e o roteiro tem excelentes diálogos, principalmente em seu terceiro ato quando vemos a relação do título com à ideia central do longa. É bom ver o cinema brasileiro produzindo algo não seja 'cosmético'.

Entre Abelhas
BRA, 2015 - 99 minutos
Drama
Direção: Ian SBF
Roteiro: Ian SBF, Fábio Porchat
Elenco: Fábio Porchat, Giovanna Lancellotti, Irene Ravache, Letícia Lima, Luis Lobianco, Marcelo Valle, Marcos Veras, Silvio Matos
Cotação: * * * *

Termômetro:
- Humor: * *
- Drama: * * * *
- Romance: * *
- Fantasia: * *
- Ação / Aventura: *
- Policial: * 
- Suspense: * *  
- Sexualidade: * 
- Escatologia: *
- Violência: * 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Se puder... Dirija!

“Se puder... Dirija!” não é tão ruim como parece, mas também não é bom como deveria ser. O filme se inspira na tradicional premissa de um pai ausente que tenta ter um bom relacionamento com o filho pequeno. O roteiro é norteado de reviravoltas e situações clichês (lugar errado na hora errada) que poderiam ser melhores se fossem mais consistentes e convincentes (algumas confusões parecem esquetes televisivas). Por outro lado, a estória tem lá sua lição de moral bonitinha, o humor besteirol rasteiro diverte e o perfil cômico de Luiz Fernando Guimarães, apesar de soar ultrapassado, ainda garante alguns sorrisos. O longa foi o primeiro no Brasil a ser feito com tecnologia 3D, mas isso não combinou tanto com a narrativa, ainda que tenha ângulos e posicionamentos de câmera que favorecem ao efeito na profundidade.

Se Puder... Dirija!
Brasil, 2013 - 84 minutos
Comédia
Direção: Paulo Fontenelle
Roteiro: Paulo Fontenelle
Elenco: Luiz Fernando Guimarães, Gabriel Palhares, Lavínia Vlasak, Leandro Hassum, Bárbara Paz, Tonico Pereira, Eri Johnson, Reinaldo Gianecchini
Cotação: * *

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vai que dá certo

“Vai que dá certo” é a típica comédia que segue a cartilha em que pessoas desajeitadas planejam um grande roubo e, inesperadamente, tudo dá errado. A premissa é clichê e as ações em torno do tal plano não convencem tanto, mas isso é o que pouco importa. O grande barato do filme é o humor besteirol e situacional que estão afiadíssimos na trama. O roteiro, apesar dos defeitos, evita piadas de mal gosto, cria divertidas reviravoltas, brinca com a cultura nerd e faz caricaturas hilárias de estereótipos da política, do crime organizado, da corrupção policial e do paulistano. O bom elenco se mostra inspirado ao protagonizar gags (algumas com cara de esquetes) que fazem jus aos Trapalhões. Destaques para Gregório Duvivier e Felipe Abib!

Vai que dá certo
Brasil, 2013 - 100 minutos
Comédia
Direção: Maurício Farias
Roteiro: Maurício Farias, Fábio Porchat
Elenco: Danton Mello, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Felipe Abib, Lúcio Mauro Filho, Bruno Mazzeo, Natália Lage, Lúcio Mauro, Sérgio Guizé
Cotação: * * *

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

2 Coelhos

No lançamento de “2 Coelhos”, escrito e dirigido pelo estreante Afonso Poyart, a propaganda era de que o espectador iria apreciar algo diferente e inédito no nosso cinema. Se tudo não cria, se copia, de fato, em ‘nível Brasil’, o filme é novidade pelo estilo de produção e é uma grata surpresa nos quesitos criatividade narrativa e cultura pop. 

 A história gira em torno de Edgar (Fernando Alves Pinto, de “Nosso Lar”), um sujeito com planos ambiciosos que planeja um roubo milionário que envolve um traficante e um político. O protagonista narra em off toda a trama até culminar em seu objetivo, passando por reviravoltas divertidíssimas, imagens espetaculares de explosões e tiroteios e câmeras lentas aos montes. 

“2 Coelhos” é uma mistura de estilos e linguagem. O filme tem violência e diálogos nonsense que lembram as produções de Quentin Tarantino, intrigas, elenco caricato e edição ágil e embaralhada que nos remetem aos longas de Guy Ritchie, intertextualidade que envolve o universo dos vídeo games, intervenções visuais que deixam a produção cool e ritmo intenso que mantém sempre o interesse do espectador. 

O roteiro, assim como a edição, é um grande quebra-cabeça. A princípio tudo é confuso e, aos poucos, as peças se encaixam. À medida que a historia fica linear na cabeça do espectador, o filme se torna ainda mais atraente e contagiante até culminar no clímax surpreendente. 

O cinema brasileiro precisa de uma renovada e “2 Coelhos” é uma prova de que o Brasil tem condições de fazer bons filmes de competência técnica, sem estética televisiva e longe de favelas ou da chamada ‘cosmética da fome’. 

2 Coelhos 
Brasil, 2011 - 106 min. Aventura 
Direção: Afonso Poyart 
Roteiro: Afonso Poyart 
Elenco: Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto, Marat Descartes, Neco Vila Lobos, Roberto Marchese, Norival Rizzo, Thogun, Thaíde, Yoram Blaschkauer, Robson Nunes, Aldine Muller. 
Trailer: clique aqui 
Cotação: * * * * *

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Assalto ao Banco Central

Quando o acontecimento faz história isso se torna uma grande pauta para o cinema romancear e registrar o ocorrido. E não demorou muito para que o roubo ao Banco Central de Fortaleza, em 2005, em que ladrões profissionais levaram 164,7 milhões de reais, se tornasse filme.
 
O fato foi emblemático e surpreendeu a todos não só pela maior quantia roubada no Brasil, mas pela ousadia dos bandidos que realizaram uma ação cinematográfica, de escavar um túnel até o cofre do banco. Entretanto, o resultado do filme, dirigido pelo estreante Marcos Paulo, infelizmente, não teve a mesma grandiosidade, ainda que tenha um elenco repleto de bons nomes.
 
A única coisa que atrai o espectador é a curiosidade de 'como foi que tudo aconteceu'. No entanto, não espere algo charmoso como “Onze homens e um segredo” e nem a excentricidade de “Os matadores de velhinhas” (sua história parece ter inspirado os verdadeiros ladrões), mas veja no intuito de encontrar uma comédia com cara de seriado da Globo e sem realismo nas ações.
 
É perceptível as carências da produção, como a direção sem inspiração, a trilha sonora novelesca e o fraco roteiro repleto de frases de efeito que investe numa estrutura não linear semelhante ao de “O Plano Perfeito”. Além disso, a insegura edição com muitas de idas e vindas no tempo, que dá a impressão de forçar complexidade à trama, prejudica o ritmo e a dinâmica da ação dos bandidos, o que favorece o tom cômico ao invés do suspense policial.
 
Mesmo sendo clichê e por ter uma premissa trivial e estereótipos do gênero (grande assalto, corrupção policial, investigações e triângulo amoroso), a produção tinha tudo para ser marcante e não é. Talvez a falta de recurso possa ter sido um dos problemas para que o longa fosse mais bem desenvolvido, conduzido e estruturado com conspirações, personagens, narrativa e reviravoltas mais interessantes.
 
Assalto ao Banco Central
Brasil, 2011 - 104 minutos
Policial
Direção: Marcos Paulo
Roteiro: Renê Belmonte
Elenco: Milhem Cortaz, Lima Duarte, Giulia Gam, Eriberto Leão, Hermila Guedes, Gero Camilo
Cotação: * *

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Casamento de Romeu e Julieta

As vezes o cinema brasileiro tropeça em inserir a ‘estética televisiva’ em suas produções, o que pode condenar um filme ao fracasso. Apesar da aparência ‘Global’ de “O Casamento de Romeu e Julieta”, de Bruno Barreto, o longa até não faz feio ao seguir a cartilha da ‘sessão da tarde’: é bobinho, previsível, tem lá suas confusões e cenas divertidas.
 
A palmeirense Julieta (Luana Piovani) se apaixona por Romeu (Marco Ricca), um oftalmologista e corinthiano ‘roxo’. Em nome do amor, Romeu aceita se passar por palmeirense para agradar o sogro Alfredo Baragatti (Luís Gustavo), que é um torcedor fanático do Palmeiras, o que gera desconfiança e confusão em sua família composta por corinthianos.
 
O roteiro trivial é baseado em conto de Mário Prata e inspirado na famosa peça de William Shakespeare sobre duas famílias que não querem ver um casamento entre seus parentes. Para ‘abrasileirar’ a história, o futebol e seu fanatismo passam a ser as referências que opõem as duas famílias e servem de ‘cupido’ para o romance central.
 
A trama utiliza Romeu como artifício para criar algumas situações engraçadinhas, principalmente quando ele tem de fingir ser torcedor do Palmeiras para o sogro e se esconder da avó corinthiana Nenzica (Berta Zemmel) que não quer ver o neto casado com uma palmeirense. No final das contas ‘o amor é lindo’ e a lição de moral sobre fanatismo excessivo vem à tona.
 
A sensação é que a idéia sairia melhor como um seriado de TV e não como filme, já que, esteticamente, decepciona (as representações das torcidas e as coreografias de futebol são péssimas). O destaque da produção é a atuação caricaturada de Luís Gustavo que está impagável na pele um homem que ‘devota’ sua vida às cores ‘palestrinas’.
 
O Casamento de Romeu e Julieta
Brasil, 2005 - 90 minutos
Comédia / Romance
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Jandira Martini,Marcos Caruso
Elenco: Luana Piovani, Mel Lisboa, Luiz Gustavo, Leonardo Miggiorin, Marco Ricca
Cotação: * * *

domingo, 30 de dezembro de 2012

Contra Todos

“Cidade de Deus” fez escola no cinema brasileiro e contagiou um punhado de realizadores, que apostaram em uma estética semelhante para obter algum sucesso. Exemplo disso é “Contra Todos” (2004), filme de estreia do diretor Roberto Moreira e com os mesmos produtores do longa citado anteriormente, que joga o espectador em um universo repleto de crises, pobrezas, traições e mudança de destinos.
 
A trama gira em torno de um matador de aluguel Teodoro (Giulio Lopes), que atua em um bairro da periferia de São Paulo eliminando ‘gente indesejável na comunidade’. O assassinato do filho de um açougueiro amigo da família do tal ‘justiceiro’ origina uma crise entre seus parentes e faz com que todos entrem numa miscelânea de conflitos e mentiras.
 
O diretor investe em boa parte da ideia de “Cidade de Deus” na construção atmosférica de “Contra Todos”: radicalização, violência, ousadia, linguagem coloquial e improvisações. “Os atores aceitaram participar do filme sem conhecer o roteiro e durante os ensaios descobriram e vivenciaram a história. Queria algo que não fosse falso, nossa tradição sempre foi teatral e exagerada, seja nos bons como nos maus filmes”, afirma Moreira em entrevista coletiva no lançamento do filme.
 
Além disso, Moreira busca no gênero documentário algumas opções que deixam o seu longa atrativo, como a estética amadora e hiper-realista. “É um registro naturalista, cru, direto, limpo e verdadeiro. A opção foi tratar a ficção como se fosse um documentário”, disse o diretor. O registro em tom documental e a liberdade de improvisação fizeram com que o roteiro fosse alterado diversas vezes devido a aspectos inesperados da história. De acordo com Moreira, a cada nova reunião com o elenco, o script era modificado e cada ator teve total liberdade de criar as motivações de seu personagem e “nesse processo eles inventaram cinco roteiros diferentes”.
 
Outro aspecto técnico importante, além da filmagem em vídeo digital, é a utilização da câmera inquieta (na mão), pouca trilha sonora, gravação em locações e o uso da iluminação natural, o que faz do estilo de Moreira, aqui, ser uma referência ao cinema neo-realista inspirado no movimento Dogma 95.
 
Além de fugir do clichê sociológico e de amarrar bem as reviravoltas, o roteiro proporciona um clímax surpreendente e a edição abusa de um jogo cronológico em sua montagem, em que o espectador acompanha a trajetória e os pontos de vista diferentes de cada personagem no desfecho melancólico.
 
No fim das contas, a homenagem de Moreira a Mário de Andrade com a frase “cada um por si e Deus contra todos” retrata bem a forte temática levantada. Além disso, o filme critica à sociedade moderna que não respeita o senso social e transforma a realidade numa atmosfera de angústia e emoção tendo como principal consequência à hipocrisia catastrófica.
 
Os depoimentos de Roberto Moreira neste texto foram coletados por mim durante sua entrevista coletiva (em que estive presente) no lançamento de “Contra Todos” em sessão exclusiva para a imprensa, em Belo Horizonte.
 
Contra Todos
BRA, 2004 – 95 minutos
Drama
Direção: Roberto Moreira
Roteiro: Roberto Moreira
Elenco: Leona Cavalli, Sílvia Lourenço, Aílton Graça, Giulio Lopes, Martha Meola, Dionísio Neto, Gustavo Machado, Paula Pretta, Ismael de Araujo.
Cotação: * * * *

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

De pernas pro ar

“De pernas pro ar” é um filme inusitadamente divertido. Inicialmente, a impressão que temos é que o longa explora um tema batido que utiliza clichês e fórmulas convencionais da comédia romântica. A linha narrativa até trabalha em cima disso, mas enganou quem pensou em sexo e se esqueceu dos brinquedinhos que entretém os ‘individualistas’.
 
Depois que a executiva Alice (Ingrid Guimarães) é demitida de uma empresa e vê seu marido (Bruno Garcia) pedindo um tempo do casamento, ela conhece uma vizinha (Maria Paula) que a convida para trabalhar numa sex shop. O problema é que a falta de tempo de Alice a deixa com a ‘vida comercial’ em alta e a pessoal em baixa, o que a faz repensar sobre suas atitudes e comportamento para ser feliz.
 
A história não é apenas sobre as bugigangas de uma sex shop e sua evolução econômica e mercadológica, é também um retrato da mulher moderna e sua falta de tempo para conciliar família, trabalho e ‘prazeres da vida’. A trama entrelaça essas referências de maneira plausível em um ritmo agradável e com clichês cômicos que funcionam.
 
Por falar nisso, o barato de “De pernas pro ar” são as gags que fazem o espectador rir das inúmeras situações inusitadas em que a protagonista se encontra diante dos tais brinquedinhos. Se o roteiro peca em alguma analogia ou na representação de algum drama, como o excesso de machismo, ele equilibra o humor sem forçar ou apelar para as piadas gratuitas sobre sexo.
 
Apesar do excesso de melodrama no desfecho previsível, o filme vale pelas boas atuações em seu elenco, principalmente a de Ingrid Guimarães, e pela premissa pouco convencional ‘em nível de Brasil’.
 
De pernas pro ar
Brasil, 2010 - 107 minutos
Comédia
Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Paulo Cursino
Elenco: Ingrid Guimarães, Maria Paula, Bruno Garcia, Denise Weinberg, Antonio Pedro, Cristina Pereira
Cotação: * * * *

domingo, 4 de novembro de 2012

Segurança Nacional

Parece que o cinema brasileiro tem dificuldade de acertar uma produção fora de qualquer tema que envolva a ‘cosmética da fome’, uma peculiaridade da fase do ‘Cinema da Retomada’, principalmente quando se trata de um filme de ação fora da favela. A mediocridade é nítida, fato que acontece com “Segurança Nacional”.

Um traficante latino-americano ameaça jogar uma bomba atômica no Brasil caso o presidente brasileiro não desative o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), que está obstruindo a entrada de drogas no país. Dentro dessa idéia, há a politicagem de Brasília e ações do exército na Floresta Amazônica comandadas pelo agente ‘foda’ Rocha (Thiago Lacerda).

O que mais incomoda neste thriller é a tentativa frustrada de imitar Hollywood quando o assunto é terrorismo. Há o protagonista canastrão estilo Jack Bauer, presidente negro que visita escola primária, ameaça atômica, discursos vazios (incluindo “o Brasil não negocia com terroristas”), corrupção, trama romântica piegas que envolve reviravolta barata no clímax, entre outros clichês.

A premissa podia ser interessante (afinal de contas, o tema é atraente), mas de tão mal explorada ela perde sua importância dentro do contexto do longa. Para piorar, o roteiro é repleto de furos e a trama tem ritmo veloz, o que evita desenvolver os personagens e trabalhar melhor as reviravoltas que, por sinal, são previsíveis e mal arquitetadas.

O filme tem uma fotografia interessante, esboça bons efeitos visuais e belas tomadas aéreas, mas seu conteúdo, incluindo as atuações ao estilo mexicana, é decepcionante. Até as cenas de ação novelescas, que são mal editadas, não têm emoção alguma. É mais um filme que engana o espectador por conter um fantástico trailer com material que deixa muito a desejar.

Segurança Nacional
Brasil, 2010 - 97 min.
Ação / Policial
Direção: Roberto Carminati
Roteiro: Roberto Carminati, Bruno Fantini, Daniel Ortiz
Elenco: Thiago Lacerda, Milton Gonçalves, Ângela Vieira, Gracindo Júnior, Ailton Graça, Viviane Victorette, Joaquin Cosio, Javier Robles, Márcio Rosário, Gilberto Torres, Sônia Lima, Tanah Correa, Cesar Cabrera
Cotação: *

domingo, 28 de outubro de 2012

Nosso Lar

É impossível não lembrar de “Amor além da vida” ao ver a produção brasileira adaptada de obra de Chico Xavier (1910-2002), “Nosso Lar”. Os filmes são incomparáveis, mas a superprodução nacional de R$ 20 milhões não faz feio e o produto saiu melhor do que eu imaginava.

O longa, baseado no primeiro volume da série “A Vida no Mundo Espiritual” (1944) escrito e/ou ‘psicografado’ pelo famoso médium brasileiro, narra a jornada do médico André Luiz (interpretado por Renato Prieto) que morre no mundo real e acorda no ‘mundo dos mortos’. Depois de algum tempo numa espécie de purgatório, André é levado para a colônia Nosso Lar, onde aprende lições morais sobre o universo do espiritismo.

Não entrando na questão mística, “Nosso Lar” tem seus méritos narrativos, mas escorrega no excesso de didatismo (narrações que justificam o que a imagem explica). Outros pontos falhos são o ritmo lento que proporciona momentos cansativos e atuações ‘felizes até demais’ (como a do coadjuvante Fernando Alves Pinto) com diálogos quase teatrais.

Entretanto, o longa não decepcionou em sua parte técnica. Há boa fotografia esbranquiçada que remete a ilustrações religiosas, efeitos visuais que encaixou bem com a proposta (se resume, praticamente, em cenários digitais) e a direção de arte interessante, como a retratação sombria do purgatório.

O destaque de “Nosso Lar” são os valores morais e o tom humanista bem trabalhados pelo roteiro que procura não ficar fechado ao contexto 'religioso'. 

Nosso Lar
Brasil, 2010 - 102 minutos
Drama
Direção: Wagner de Assis
Roteiro: Wagner de Assis
Elenco: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Rosanne Mulholland, Inez Viana, Rodrigo dos Santos, Werner Schünemann, Clemente Viscaíno, Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart
Cotação: * * *

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Lula – O filho do Brasil

Em um primeiro momento, a impressão que tenho é que a cinebiografia de Lula veio em uma época não muito apropriada. O problema é que o objetivo de valorizar ainda mais a popularidade do então presidente do Brasil bateu de frente com as eleições de 2010 que, subliminarmente falando, pareceu ser uma propaganda indireta de seu partido no período pré-eleitoral.

Deixando de lado o ímpeto comercial, o longa, inspirado no livro “Lula – O filho do Brasil” escrito por Denise Paraná, decepciona ao apresentar um fraco trabalho de direção e roteiro sobre a história de ‘luta’ de uma importante personalidade que merecia um retrato melhor. A verdade é que o filme não tem carisma e é burocrático ao extremo.

O filme mostra a jornada do personagem-título desde criança no sertão pernambucano até a fase adulta quando se sindicaliza e se torna o ‘famoso torneiro mecânico’ no ABC Paulista. A trama não cansa de valorizar as virtudes e ambições de Lula e traz clichês de adversidades semelhantes aos de “2 filhos de francisco”, situações piegas (incluindo a trilha sonora), discursos pouco inspirados e saltos temporais na narrativa que desagradam.

A rapidez nos pulos de uma fase para a outra prejudica a construção de atmosferas dramáticas ou, pelo menos, não há tempo para se emocionar em algumas passagens. Além disso, o roteiro ignora a importância de figuras secundárias e não explica certas condições e/ou situações que não se encaixam na realidade dos personagens, que podem ser consideradas um furo no script.

Apesar de evitar polêmica sobre o ponto de vista político do protagonista, o filme tem uma convincente reprodução de época (destaque para a cena do discurso para 100 mil pessoas) e boas atuações de Gloria Pires e de Rui Ricardo Dias, que recria com eficiência os trejeitos do ‘filho do Brasil’. No final das contas, parece uma homenagem à mãe de Lula que, com suas frases ou palavras de efeito, profetizou o sucesso de sua ‘cria’.

Lula - O filho do Brasil
Brasil, 2009 - 128 minutos
Drama
Direção: Fábio Barreto
Roteiro: Denise Paraná, Fábio Barreto, Daniel Tendler, Fernando Bonassi,
Elenco: Rui Ricardo Diaz, Guilherme Tortólio, Felipe Falanga, Glória Pires, Lucélia Santos, Cléo Pires, Juliana Baroni, Milhem Cortaz
Cotação: * *

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Zuzu Angel"

A estrofe "Quem é essa mulher que canta sempre este estribilho: ‘só quero embalar meu filho que mora na escuridão do mar", da música de Chico Buarque, resume toda a alma do filme "Zuzu Angel", dirigido por Sérgio Rezende ("Guerra de Canudos"). A dor da perda, a angústia, o amor materno, a coragem e a busca pela verdade e justiça são as principais características da personagem título que enfrentou os generais da ditadura militar no Brasil, nos anos 70, para tentar reaver o corpo de seu falecido filho Stuart.

A premissa, além de ter como pano de fundo um thriller político sobre a ditadura, apóia-se em uma parte da biografia da estilista mineira Zuzu Angel, interpretada, aqui, por Patrícia Pillar. A história começa em 1971 com a morte de Stuart (Daniel de Oliveira), ativista do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e termina em 14 de abril de 1976, com a morte de Zuzu.

A estilista se destacou na moda por usar seu trabalho em desfiles para protestar contra o desaparecimento de seu filho. Oficialmente, seu óbito foi dado como acidental ao sair em alta velocidade do Túnel Dois Irmãos na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro. Apenas nos anos 90, sua morte foi reconhecida como assassinato.

Mesmo tendo uma atmosfera convencional, o diretor Sérgio Rezende constrói uma passagem política intensa e dá a oportunidade ao espectador de relembrar ou conhecer alguns fatos da história recente do Brasil. Além disso, Rezende insere boa carga dramática à trama com temas que afligiram e ainda afligem a sociedade brasileira, como os direitos humanos e a impunidade.

O filme, apesar de apresentar uma estética televisiva em certos momentos e uma montagem cansativa dos flashbacks, se sobressai pelo tom de denúncia do roteiro e pelo resgate histórico sobre a ditadura, retratado pela fotografia granulada, pelas tensas cenas de torturas e pelos figurinos baseados nas criações da própria Zuzu Angel. Destaque para as ótimas atuações de Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira.

Zuzu Angel
BRA, 2006 - 110 minutos 
Drama/Nacional
Direção: Sérgio Rezende
Roteiro: Marcos Bernstein e Sérgio Rezende
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal.
Trailer: clique aqui
Cotação: * * * *